
Preenchendo o vazio do pódio
Agradecimentos:
Queria agradecer ao Jock e à equipe do PSV pelo convite, dizer que eu estou lisonjeado, que foi massa, experiência edificante, aprendi e aquilo tudo. Gostei bastante de alguns textos e não gostei de outros, como deveria ser. O resultado final é bastante pessoal, mas, se calhar, bastante parecido à votação popular. Li todos os textos, fiz algumas anotações, guardei frases que gostei, e depois fui comparar com os votos que a comunidade deu.
Critérios e forma de julgamento:
Sou publicitário e também escrevo alguns textos livres. Este é o texto que inscreveria no concurso, se pudesse inscrever peças velhas, e eu não fosse o responsável pelo julgamento. (http://tarrask.com/qualquer/no-chuveiro-eu-sempre-lembro-de-voce.html) Não me considero tão bom escritor assim, principalmente na hora de julgar poesia, então façam o favor de perdoar e relevar se discordam completamente do meu critério. Eu gosto de escritores bons, mas de muita coisa esquisita também.
Na hora de decidir, fiz da seguinte forma. Li todos os posts, um a um, sem ver os nomes nem a votação que tinham recebido. Anotei algumas coisas, alguns comentários (quem quiser saber a minha opinião pessoal e detalhada sobre o próprio texto, pergunte (contato@tarrask.com), mas saiba que eu julgo como publicitário). Depois, coloquei uma pontuação. Os 3 três textos que conseguiram arrancar um “Filho da puta”, ou seja, a nota 5, são os três primeiros colocados.
Achei 4 textos ducaralho, que ficaram com a nota 4. Como é praxe no PSV, vou deixar algum comentário sobre eles também.
5 textos estão bons, formalmente, bem-feitos. Tão bons, mas dava pra fazer mais.
6 textos são primeiras ideias, que não precisavam ser apresentadas, e com certeza os autores conseguiriam um resultado melhor se tivessem passado mais horas, pedido uma pizza e dormido na agência. Sinto muito, a vida é assim.
8 fugiram do briefing, apresentaram ideias requentadas da campanha do ano passado, não olharam referências suficientes ou tiveram o azar do cliente (eu) não gostar e pedir uma marca maior. Não sei, mas não foram aprovados.
Depois, fui escolher baseado num critério meramente pessoal qual era o ganhador, o segundo e o terceiro. Parabéns. São todos ótimos e eu tenho inveja de vocês. Morram.
Os textos não comentados aqui, se os autores quiserem perguntar minha opinião, fiquem à vontade. Prefiro só comentar em público os que não precisam de comentários.
Justificando o injustificável:
Os ganhadores são até meio óbvios, também conseguiram notas bastante altas entre o público. Ganharam, principalmente, por consistência e um certo cuidado com a palavra que nem todo mundo parece ter. Além da forma, o conteúdo precisava ser um pouco diferente do óbvio. “Não tenho amor, minha vida tá vazia” é difícil de contar se você não gastar muito neurônio no caminho. No entanto, eu sou um dos defensores da execução também. Aquele lance Juan Cabral, de contar a mesma história de sempre, mas tão bem contada, que fica bom. Isso também conta muitos pontos, afinal, literatura é falar sobre duas coisas, amor que não deu certo e amor que deu.
Jefferson Rangel definiu logo no começo o problema que é escrever, e também julgar, este concurso: “Difícil falar do vazio sem se perder em palavras também vazias.” Tem toda razão, e merece ser mencionado aqui.
Qual era a manha da ariranha pra ganhar esta bagaça?
Na minha opinião, escrever não é colocar palavras, mas retirá-las, cortar, mexer, modificar e alterar. Não acredito em texto psicografado, inspiração romântica nem que uma história possa nascer perfeita, sem uma vírgula a ser modificada. Uma das entradas do concurso, inclusive, tinha comentários dos próprios leitores dizendo que poderia ser muito melhor se tivesse sido revisada.
Tiago Fidellis deixou o poema E pra folha nada:
“O escritor solitário conversava com o papel,
o papel respondia em argumentos vazios
e a literatura se enchia de sofridos devaneios.”
Explica o que aconteceu com alguns dos concursantes. O que escreveram era vazio, encheram o papel de devaneios e palavras difíceis para dizer nada. Acho o poema bom pra caralho, principalmente porque eu vi muitos autores fazendo isso (e confesso que passo muito tempo olhando pra uma tela fazendo a mesma coisa).
Bunda-hora:
Aquela ideia de que o escritor, redator ou jornalista tem que ficar horas lendo, escrevendo, é bem verdade. Exceto algum poeta romântico, todo bom escritor sempre defendeu a revisão, a mudança, a diferença entre o primeiro rascunho e o original. Jogar capítulos inteiros do livro fora, apagar parágrafos, tirar as piores ideias. Isso sempre faz a média subir. Se você escreveu um texto em dez minutos (ou se o seu texto dá essa impressão), provavelmente não vai conseguir ir muito longe. Não interessa de verdade o tempo que gastou. Interessa o que eu, como leitor, acho que você gastou.
Mas Tarrask, cadê o prêmio, peste? Quem ganhou?
Pera, primeiro vou comentar o quarto lugar, os quatro contos com nota 4.
Sessenta e nove
Muito bom. Tem um giro final bacana, não deixa ar pro cérebro divagar, o conteúdo esta encaixado, relacionado, unificado. Gosto muito de quando um autor começa a história num lugar, vai para outro, passeia, gira e depois volta pro início. Talvez pudesse ser mais longo. Parabéns, Edu.
The eggman
Formalmente bom, bem editado, corrigido. História bem narrada. Tem uns pontos de surpresa que estão conectados à narrativa, nada frouxo. Adoro o surrealismo do final, de não ter um sentido, principalmente neste concurso (vazio é o personagem ou o sentido da história?). Preciso confessar que não gosto de trocadilho nem de jogo de palavra, mas isso não me impede de achar o texto muito bem feito. Parabéns, Elisa.
E pra folha nada
Já falei do poema do Tiago antes. Acho que misturar Engenheiros do Hawaii, Clarice Lispector e uma menina de treze anos nunca dá certo, literariamente falando, e que muita poesia é feita exatamente assim, devaneios e sofrimento de quem escreve, dor e sentimento de perda pra quem lê. O poema do Tiago, em três linhas, conta uma história. Poderia ser um manual de como escrever: “olha, senhor futuro escritor, você não é nada, o papel é tudo. O resto é devaneio.” Perdão, o Tiago disse melhor que eu.
Texto vazio
Tive duas impressões distintas com este texto. É formalmente muito bem trabalhado, dá a sensação que a autora realmente construiu com as palavras, não jogou pro céu e esperou que caíssem no lugar certo. A outra impressão é negativa: o estilo é bastante complicado, exatamente por ser trabalhado. É necessário vontade para entrar no texto, entender. Discutiria o verso “Afirmo o incompatível termo”, que me lembra Augusto dos Anjos e ao mesmo tempo me parece pedante. De todas as formas, adorei o quebra-cabeças. Parabéns, Rafaella.
Pô, mas chega Massa na frente de Alonso e não chegam os vencedores? (créditos @elyndo)
É. Lá vem eles, no pódio. E nenhum deles era da mesma equipe, acho eu.
Terceiro lugar
O terceiro lugar vai pra pedrada da Luana Marques, em Ruínas. Discordo dos comentaristas que dizem que o texto é fofo. Acho uma porrada, e ao mesmo tempo, sutil. Fala de perda rapidamente. Não se perde em detalhes, em clichês nem explicações sobre o que aconteceu. Pode-se aplicar a quase qualquer tipo de luto. Aliás, se mudasse a palavra retrato por foto, poderia aplicar-se a toda e qualquer dor. É ser preciso e polissêmico ao mesmo tempo. Parabéns, Luana, e espero que a dor passe logo.
Segundo lugar
O segundo lugar vai para Aline Valek e o seu Inquilino. É murro no queixo no penúltimo parágrafo, coisa de conto bom. Você precisa reler. Aliás, confesso, a segunda leitura é mais divertida que a primeira, é quando você descobre os fios do titereiro, a trama que as palavras formam. Quando o leitor é obrigado a reler uma história para isso, é sinal que o autor editou pelo menos 3 vezes mais. Muito bom mesmo, Aline.
And the winner is… Peeeeeeeeeeeedro.
André Andrade, com Vazios. Miserável. Bandido. Tomara que você nunca encontre a moreninha no metrô, mas que sempre seja esmagado por gente apressada e fedorenta.
Falando sério. O conto é muito bom, formalmente bom, a história é bonita, mostra uma evolução de personagem, uma mudança de percepção, que é difícil em pouco espaço, e eu gosto muito da maneira como resolve o conflito de odiar o metrô, a agonia cotidiana. O começo do texto com a frase repetida é maravilhoso. Detalhe que mostra o craque. O título, este misterioso, não me convence 100%, mas já mostra o conflito futuro do personagem. Parabéns.
Mais comentários finais:
Tô falando muito, né? Nem era pra dizer mais nada não. Parabéns a todos os envolvidos, obrigado pelo convite e desculpem a bagunça.
Alex Luna Tarrask é publicitário, escreve coisas esquisitas no Qualquer coisa de triste e é tímido pessoalmente, mas faz cada email longo que dá gosto de ver.